Como vimos no último post desta seção, a equipe Coloni sempre falida e no mês de setembro de 91 a história não era diferente. Seu dono, Enzo Coloni, acabou vendendo o que sobrou da sua equipe para o também italiano Andrea Sassetti, por 8 milhões de Libras. Sassetti era um playboy milionário que atuava na indústria de sapados de moda. O time recebeu o nome de uma de suas empresas, a Andrea Moda, e partiu para a temporada de 1992, usando o terrível carro da Coloni, equipado com “poderosos” motores Judd V10.

Para pilotar os seus bólidos, Sassetti contratou ninguém menos que Alex Caffi, que havia sido mandado embora da Footwork por causa da sua má forma e de suas seguidas lesões. O outro braço duro contratado foi Enrico Bertaggia, que havia tentado passar da pré-qualificação com a ex-Coloni em diversas corridas em 1989 e nunca obteve sucesso.

Caffi em Kayalami: O primeiro mico.

Logo na primeira corrida, na África do Sul, o primeiro vexame. Para que a equipe pudesse participar da temporada, a FIA exigiu que Sassetti pagasse as garantias que as equipes novas precisavam pagar para poder estrear no certame, cerca de US$ 100 mil, na época. Sassetti não quis pagar a quantia, alegando que a equipe era a Coloni rebatizada. Além disso, outras equipes também mudaram de nome e não pagaram a garantia.

De certo modo, Sassetti estava certo, e a equipe chegou a participar dos treinos de reconhecimento do circuito de Kyalami, na quinta. Porém, a FIA decidiu que a equipe era nova e a excluiu da primeira etapa do mundial.

Com esse pequeno problema, a equipe decide dar uma reformada nos carros da Coloni, renomeados de Moda S921. Os desenhos ficaram a cargo de Nick Wirth (fundador da Simtek) e de mecânicos de outros times. Mesmo com o carro pronto às pressas, a equipe desistiu de participar da 2ª etapa, no México, e os profissionais contratados, incluindo Bertaggia (este nem andou nos carros) e Caffi, acabaram demitidos. E eles nem haviam estreado!

E chegamos na terceira etapa, o GP do Brasil. A equipe estava esperançosa para a tão sonhada estréia e os lugares de Caffi e Bertaggia forma preenchidos pelo super herói das equipes bizarras, Roberto Moreno. Para o segundo carro, o italiano contava com o inglês Perry McCarthy. Só que a super licença do inglês foi cassada, o que foi até bom para a equipe, pois as peças de reposição e os equipamentos básicos não davam nem para um carro.

Segundo Flávio Gomes, que cobria o GP na época: “O carro era uma temeridade. Os mecânicos da Andrea entravam e saíam do autódromo numa Kombi (eram João, Cláudio e Walter) , atrás de oficinas que pudessem tornear uma peça, ou que dispusessem de um cabo, uma válvula, uma mola.”

A miséria era tanta que, em troca de divulgação da churrascaria Fogo de Chão no macacão de seus pilotos, toda a equipe tinha almoço de graça durante toda a estadia no Brasil.

Portanto, a honra da estréia ficou a cargo de Moreno, que na pré-qualificação travaria uma batalha épica contra Bertrand Gachot e Ukyo Katayama da Larrousse, Michele Alboreto da Footwork, Andrea Chiesa da Fondmetal.

Logo na sua 1ª saída para a pista, a manopla de câmbio escapa da mão de Moreno. Depois do problema resolvido, Moreno volta à pista e toma um baile das outras equipes, ficando cerca de 15 segundos atrás do último colocado. Uma verdadeira vergonha.

Depois da brilhante estréia aqui no Brasil, o circo parte para a Espanha, aonde aconteceria a 4ª etapa do mundial daquele ano. Depois de resolvido seu problema com a super licença, finalmente Perry McCarthy poderia fazer a sua estréia. Só restava uma dúvida: ele teria um carro?

Na pré-qualificação, Roberto Moreno foi o 1º piloto da equipe a sair para a pista. Depois de algumas seqüências de curvas, o motor de Moreno estoura. Além disso, a equipe se enrolou toda e só conseguiu preparar o carro do McCarthy para a segunda metade da pré-qualificação. Se é que conseguiram preparar alguma coisa, pois o carro de Perry quebra antes mesmo de ele entrar na pista. O carro dele parou depois de andar apenas 18 metros.

O carro não andou nem 18 metros e quebrou. Um recorde!

Usando as peças do carro de Perry, a equipe ainda coloca Moreno de volta na pista, mas o brasileiro não é Jesus e milagres não aconteceram. O carro era 10 segundos mais lento que o último colocado.

Na etapa seguinte, em Ímola, a equipe finalmente consegue colocar seus dois carros na pista. Por incrível que pareça, a equipe consegue uma excelente melhora e Moreno fica apenas 7 segundos atrás do pole, Nigel Mansell. McCarthy até conseguiu estrear, ficando 8,5 segundos atrás de Moreno. Faltou pouco para colocarem um carro no grid de largada.

E o milagre veio em Mônaco. Numa atuação digna de campeão mundial, Roberto Moreno consegue se classifica para o treino de classificação no sábado. Não satisfeito, na metade do treino de sábado, o brasileiro tem uma das atuações mais sobrenaturais da F1 e coloca seu carro na metade do grid. O feito foi tão grande que quando Moreno retornou para os boxes, todos os engenheiros, mecânicos e chefes de todas as equipes da F1 estavam de pé, aplaudindo Moreno.

Moreno deu um show em Mônaco

Porém, estamos falando da Andrea Moda e suas trapalhadas. Depois da volta mágica de Moreno, ele volta para os boxes arrastando seu carro pela pista, com a intenção de voltar para os treinos. Claro que eles não conseguem arrumar o carro a tempo, mas mesmo assim, o brasileiro conseguiu se classificar em último.

McCarthy também andou em Mônaco. Deu três voltas e depois teve que ceder todas as peças do seu carro para Moreno poder correr. Mesmo assim, eles teriam um problema (novidade) para a corrida. Moreno havia dado muitas voltas com seu motor e eles não sabiam até quando o carro iria agüentar. Moreno viu seu motor Judd abrir o bico depois de 11 voltas completadas (na verdade, foram as únicas voltas que a Andrea Moda conseguiu dar em uma corrida). Mesmo assim, o “impressionante” desempenho em Mônaco fez com que os patrocinadores dessem a cara novamente nos carros da equipe.

Moreno conseguiu dar 11 voltas na corrida. Foram as únicas da equipe na F1.

Depois de Mônaco, a F1 foi para o Canadá e mais uma das bizarrices acontece. A equipe e os pilotos estavam presentes, mas por falta de pagamento, a Judd não enviou os motores para o time. O jeito foi arrumar um motor emprestado com outra equipe, a Brabham, que também andava com os sofríveis motores Judd. Com apenas um motor, só Moreno foi para a pista, mas não por muito tempo. O brasileiro conseguiu dar apenas 4 voltas com o tal motor emprestado, que explodiu.

De volta para Europa, a equipe se aprontava para participar do GP da França. Porém, uma greve de caminhoneiros fechou as principais rodovias da França. Todas as outras equipes pegaram um atalho até Magny-Cours, menos o caminhão da Moda, que ficou preso num gigantesco engarrafamento. Novamente a equipe não participa de um GP e acaba perdendo seus valiosos patrocinadores adquiridos depois da façanha de Moreno em Mônaco.

Como toda desgraça é pouca para a equipe, para a etapa seguinte, em Silverstone, acontece mais uma atrapalhada. No treino de sexta acontece a mesma história de sempre e McCarthy teve que ceder algumas peças de seu carro para Moreno andar. Além disso, teve que esperar o seu companheiro marcar um tempo para poder tentar alguma coisa.

Mas quando o brasileiro foi para a pista ele estava usando pneus de chuva, pois havia chovido durante a madrugada e a pista estava um pouco úmida no início dos treinos. Com esse probleminha de dividir o carro com Moreno, o inglês saiu muito atrasado para o treino e nem trocou os pneus. Só que quando ele saiu para tentar andar com o carro a pista já estava bem seca e mais uma fez a equipe vira motivos de piada. Lá estava o cara tentando dar voltas rápidas com pneus de chuva em pista seca. Era uma atrapalhada atrás da outra.

Moreno foi razoavelmente bem, ficando 2 segundos atrás do último colocado e McCarthy, com pneus de chuva, foi 30 segundos mais lento que o pole do dia, Mansell. Foi mais um mico para entrar para a história da F1.

Uma das suas trapalhadas: pneus de chuva em pista seca

Na Alemanha, mais um fato insólito acontece com a equipe. McCarthy simplesmente perde a pesagem oficial porque estava jogando Super Nintendo na garagem da equipe. Dessa forma, o inglês acaba sendo desqualificado. Já Moreno, mesmo tirando o máximo do carro, não conseguiu classificá-lo para o treino de sábado, ficando alguns décimos atrás do último colocado.

Na Hungria um fato animava toda a equipe. Van de Poele saiu da Brabham e foi para a Fondmetal, no lugar de Chiesa, que havia sido demitido. Com isso faltava um carro no grid e as chances de um carro da Moda participar da corrida eram grandes, pois pelo menos um carro da equipe iria participar dos treinos de sábado. Claro que com Moreno. Moreno dá um show em Hungaroring, ficando apenas 6 segundos atrás do pole, Ricardo Patresse. Mesmo assim, ele foi o carro mais lerdo de todos e não se classificou para a corrida. Neste momento, as coisas começam a ficar ruins para a Sassetti. A FIA deu um ultimato: ou davam um carro descente para McCarthy ou o registro da Moda seria impugnado.

Mas com o fim das atividades da Brabham, em Spa a pré-classificação tornou-se desnecessária, “promovendo” os carros da Andrea Moda à qualificação propriamente dita. Mesmo com o francês Erik Comas, da Ligier, sem marcar tempo, os carros da Moda só conseguiram os últimos tempos do treino. E McCarthy foi 10 segundos mais lento que Moreno.

Para completar a história, Sassetti acabou preso pela polícia belga por emitir notas fiscais falsas. Sem alternativas, a FIA anula o registro da Andrea Moda e a exclui do campeonato por “trazer má-reputação ao esporte”. Foi o fim para a equipe mais atrapalha de todos os tempos.

A falta é justificada pelo desempenho da equipe.

O carro da Andrea Moda, o S921, ainda foi comprado para a obscura equipe Bravo GP. Mas seria feito as devidas modificações. O novo carro seria chamado de Bravo S931 (por isso que o carro da Simtek de 94 era chamado de S941) . O chefe de equipe seria um certo Adrian Campos. Os pilotos seriam Jordi Gene (o irmão do Marc e não se sabe se ele é melhor) e Nicola Larini. Pilotos de teste: Ivan Arias e Pedro de la Rosa.

O projeto começou a morrer quando Mosnier morreu, de câncer fulminante, apenas dias depois da apresentação do projeto. A equipe ainda se inscreveu para 1993, mas o carro acabou não sendo colocado sequer pra testes e sumiu, oficialmente, dias antes do GP da África do Sul.

Anúncios