Por incrível que pareça, Vita conseguiu um acerto com Bruno Giacomelli (ou Jack O’Malley, se preferir), que havia corrido pela última vez num carro de Fórmula Um em 1983. Porém, Giacomelli havia realizado um teste com a Leyton House em 1990. Alguns “historiadores” contam que Giacomelli estava mesmo era querendo diversão na sua vida de aposentado, por isso que topou a terrível situação.

Dessa forma, Giacomelli faria sua estréia pela Life em casa, no GP de San Marino, que era a 3ª etapa daquele mundial. E nem é preciso dizer que as coisas não seriam melhores com a chegada do italiano.

Bruno Giacomelli com sua Life em San Marino. Parece o Michael Schumacher numa Ferrari versão mais pobre


Aonde ele conseguiram esses patrocínios?

Bruno deu apenas uma volta, a de aquecimento e verificação. Quando era pra valer, mais uma vez o carro quebrou e Giacomelli não voltou mais para a pista. Era o fim de participação da Life no GP de San Marino.

Após a sua “grande” participação no GP de San Marino, a equipe estava bastante animada com a melhor oportunidade que eles teriam no ano para mostrar algo. O GP de Mônaco era considerado a melhor oportunidade de uma equipe medíocre apresentar algum desempenho e a Life agarrou a oportunidade, apresentando-se muito bem no chiquérrimo Principado. Muito bem em se tratando da Life, diga-se de passagem.

Por mais incrível que pareça, Bruno conseguiu dar 10 voltas (!) pelo circuito. Durante o treino da pré-qualificação, Giacomelli se mostrava cada vez mais a vontade com a sua aberração e, volta após volta, ele conseguia ser cada vez mais rápido. Antes de ir para o box e ser ovacionado pela meia duzia de mecânicos da equipe, Bruno Giacomelli conseguiu a marca de 1’41.187. Faltando 20 minutos para o fim do treino, eles colocam os pneus de qualificação no carro e Giacomelli volta para a pista. Era um momento de grande empolgação para equipe e Giacomelli volta com  tudo que podia dar na barata.

A lenda:  Life deu 10 voltas em Mônaco

E lá foi Giacomelli com a Life, marcando um tempo de 1’47.501 na sua primeira passagem. Na volta seguinte, o motor da Life não aguentou tanta emoção e acaba quebrando na parte da piscina. Era o fim da participação da Life em Mônaco. Até eu fiquei triste!

Pela foto, parece que Bruno Giacomelli esta pedindo socorro pelo celular!

É bem verdade que o terrível W12 estava fumegando desde que havia sido acionado, mas ele demorou a quebrar. E isso foi até bom, porque assim podemos fazer uma melhor comparação com os outros carros, além de ter mais fotos deste raro acontecimento.

Só para efeito de comparação, Ayrton Senna fez a pole com o tempo de 1’21.314, equanto que a melhor volta de Bruno foi em 1′41.187, ou seja, quase 20 segundos mais lento que o brasileiro. Para não pegar tão pesado assim, vamos fazer uma comparação com Bertrand Gachot, que ficou em penúltimo com a igualmente horrorosa Coloni, marcando o tempo de 1’33.554. Fazendo os cálculos, o carro da Coloni era 7 segundos menos lento que a Life. E em Mônaco!

Giacomelli em ação durante os treinos para o GP de Mônaco.

Depois do grande Prêmio de Mônaco a F1 desembarcou no Canadá. E no circuito de Montreal as coisas voltaram ao normal para a Life. Depois de algumas voltas, Giacomelli foi 30 segundos mais lento que Senna, que marcou a pole. Tá bom, eu paro de comparar a Life com a super McLaren. Giacomelli foi 3 segundos mais lento que Claudio Langes, que também tentava andar com a terrível Euro Brun.

A equipe preparando o carro no box de Montreal.

Giacomelli voltando com o carro para o box, em Montreal.

No GP do México, mais uma vez a Life deu vexame e Giacomelli deu um giro de 3 minutos mais lento que todo os outros carros. Com certeza, eles nem passaram da volta de aquecimento, não só por causa o alto tempo registrado, mas porque eu não achei fotos sobre a aparição da Life no México.

Porém, antes mesmo de desenbarcar para a etapa do Canadá, o dono da equipe, Ernesto Vita, já havia percebido que o seu revolucionário motor w12 era um fracasso. De tantos defeitos e erros de projeto, o motor era um dos principais vilões da novela. Por causa disso, Vita já havia entrado em negociação com a Judd para receber seus fraquinhos motores V8. Porém, essa negociação estava se arrastando. A Judd relutava em fornecer seus motores e não restava outra alternativa a equipe: continuar rodando com os terríveis w12.

De volta ao velho continente, a F1 desembarcou em Paul Ricard. Mais uma fez a Life superou as expectativas e o motor simplesmente morre quando o carro estava saindo para a pista. Nem a volta de aquecimento eles deram. Um feito inalcançado até hoje.

Na etapa seguinte, em Silverstone, houve um raio de esperança, assim como aconteceu em Mônaco. Antes do motor quebrar novamente, Giacomelli consegue dar cinco voltas pelo circuito. Eles conseguem dar uma guaribada no motor e Bruno volta para a pista. A sua melhor volta foi em 1:25.947, 18 segundos mais lento que Mansel, o pole do dia. Se servia de consolo eu não sei, mas eles foram apenas 6 segundos mais lento que a horrível Coloni-Subaru de Gachot. Só que a realidade era cruel: os carros da Fórmula 3, que também estavam competindo no mesmo fim-de-semana, foram apenas três segundos mais lentos que o pole. Ainda assim, foi o melhor desempenho da Life num final de semana.

Life em Silverstone: foi o melhor desempenho apresentado

No GP da Alemanha, que foi disputado em Hockenheim, ficou claro o quanto a Life era lenta. Foi constatado que o carro era cerca de 64 km/h mais lento que qualquer outro carro nas longas retas do circuito. Estimativas sugeriam que o W12 da Life tinha aproximadamente 375hp, cerca da metade da potência dos motores Honda que equipavam a McLaren. E nada do acordo com a Judd sair.

Com uma disparidade de força tão grande, Bruno Giacomelli foi cerca de 20 segundos mais lento que o último colocado, Claudio Langes, que tentava andar com uma EuroBrun.

Na Alemanha ficou evidente a disparidade de potência entre a Life e as outras equipes.

Já na Hungria, a esperança era de que o medíocre desempenho fosse mascarado pelo desenho travado do circuito. A esperança foi embora quando Bruno tomou mais de 15 segundos do seu arqui-rival Claudio Langes, da combalida EuroBrun.

Na Hungria, mais um vexame.

Na Bélgica, um inusitado problema atormentava a equipe: O sistema de ar comprimido que aciona o motor estava congelado e o carro perde muito tempo no box. Mas parece que o problema mexeu com o brio de Bruno, que conseguiu dar 3 voltas consecutivas! Claro que não foi nada competitivo e ficou 18 segundos atrás da EuroBrun e o motor mais uma fez abriu o bico.

Em Spa, apenas três voltas.

Na Itália, no GP caseiro da equipe, era melhor não ter entrado na pista, pois foram 20 segundos mais lento que o último colocado, além de ter dado somente duas voltas antes do motor explodir.

A última aparição do motor W12 foi em Monza.

Porém, era grande a especulação de que Ernesto Vita havia conseguido um acerto com a Judd. Além disso, a equipe contava com o apoio da patrocinadora, a PIC, que prometeu investimentos na ordem de 20 milhões de dólares, fora o fornecimento da tecnologia militar soviética.

A Life fez um teste com o carro com o novo motor. Mas aonde esta  a cobertura?

A equipe até que mudou de nome, passou ser Life-PIC, mas Ernesto Vita nunca viu o dinheiro russo, muito menos ajuda tecnológica. Sem ajuda tecnológica e sem dinheiro, mas com um motor novo, restou a Vita usar os antigos chassis da First, que foram projetados para receber os fraquinhos motores Judd.

Mas como estamos falando da Life…

Com o motor no lugar, eles descobriram que a cobertura do motor não se encaixava. Deram um “jeitinho” na tampa e foram para Estoril, aonde aconteceria a etapa portuguesa do campeonato.

Mesmo que a equipe tenha feito um monumental esforço para colocar o carro na pista, tudo se mostrou em vão. Giacomelli conseguiu apenas dar meia volta com o carro antes da tampa do motor voar pelos ares! Além da tampa, o carro apresentou uma novidade: uma pane elétrica. Com tantos problemas, Giacomelli sequer marcou tempo.

Conseguiram tirar uma foto do carro em Portugal

Na etapa seguinte, no circuito espanhol de Jerez, o carro consegue dar somente duas voltas antes do motor quebrar. O motor que a Judd forneceu para a Life era usado, bem usado. A volta que foi conometrada mostrou que o carro era realmente horroroso. Foi quase 35 segundos mais lento que o pole.

Sabiamente, Ernesto Vita decide abandonar a F1 e a Life não participou das duas últimas etapas do campeonato. Nunca mais ninguém ouviu falar da Life.

O carro da Life ainda esta em atividade em eventos pela Europa. O sistema de injeção e a fraca queima de combustível, aliado com um esquema elétrico deficiente, quebrava o motor em 2 ou 3 voltas. Agora, esses defeitos foram sanados, e de 375 hp de outrora, hoje o o motor rende quase o mesmo que os motores padrão de época, ou seja, cerca de 600cv.

Com os problemas do motor resolvido, será que a história seria diferente?

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