Ah, os autoramas. Todo mundo já teve. Eu mesmo já tive. Era simples. Um oval com dois carrinhos. No meio do caminho, os caminhos deles se cruzavam. Péssima escolha do designer. Se os dois carrinhos andassem na mesma velocidade, ele se bateriam no meio do caminho. E de fato, eles se batiam.

Mas esse meu autorama me lembrou outra pista. AVUS.. Vou falar um pouco sobre ela. Já fazia algum tempo de que não falava de pistas neste lugar onde você está perdendo seu tempo agora mesmo, e que nunca mais irá recuperar. Sei que o assunto é fora de época, mas e daí. Que se dane as leis.

Com vocês, AVUS!

Como já falei, os autoramas são brinquedos muito legais. Ela diverte a muito hoje em dia. , e, com as devidas proporções ao valor dos brinquedos e aos riscos envolvidos, era a mesma do então chanceler da Alemanha Adolf Hitler com a sua esdrúxula Avus no final da década de 30.

Em 1936 ele ordenou uma reestruturação no já existente “Automobil Verkehrs & Übungs-Straβe”, nome completo do circuito concebido em 1907 pelo Automóvel Clube da Alemanha. Essa estruturação tinha como objetivo transformar o antigo traçado de Avus na pista com maior média horária do mundo.

A pista ganhava então a versão mais cultuada atualmente. Ela consistia de dois trechos não perfeitamente retos de uma “Autobahn”, as conhecidas auto-estradas alemãs. Cada uma tinha largura de 8 m, separadas por um gramado de também 8 m. Essas retas gigantes provocaram um novo tipo de forma de carro de corrida, preocupada com a aerodinâmica e estimulada pelas disputas por quebras de velocidade máxima .

Os chamados Streamlineds cortavam os dois grandes trechos que eram ligados por um retorno chamado Sudkurve e por uma curva única no mundo. A Nordkurve era feita sobre uma bancada de concreto e pavimentada com tijolo vermelho, criando uma inclinação de 43 graus, sem nenhum tipo de proteção em caso de uma indesejada escapada de algum carro. Ela tinha 12 m de largura e 12,46 m de altura, sendo contornada de motor cheio o tempo todo, gerando uma enorme força G sobre o piloto e sobre o conjunto mecânico da época. Sob chuva ou mesmo garoa, a aderência do piso vermelho ficava temerária, exigindo muito cuidado por parte dos pilotos, a ponto de uma linha branca de segurança ser pintada para mostrar a área “segura”.

Esse conjunto de fatores deu a Nordkurve o merecido apelido de “o paredão da morte de Hitler”, que tinha a companhia da bela torre de cronometragem ornamentada com a estrela de três pontas da Mercedes-Benz.

Hitler utilizava de forma magistral a publicidade em prol do seu Reich. Os esportes eram o melhor meio de provar a superioridade alemã e no automobilismo a da engenharia germânica, logo, a inauguração da nova Avus em 1937 teve grande cobertura. Nela carros da Mercedes-Benz, Auto-Union, Alfa Romeo e Maserati conduzidos por lendas como Rudolf Caracciola, Bern Rosemeyer, Tazio Nuvolari e Giuseppe Farina disputaram uma prova aos olhos da Alemanha. E o líder alemão deve ter ficado especialmente contente, pois diante de 250 mil expectadores entregou pessoalmente o troféu a Hermann Lang, vencedor a bordo de sua Mercedes W25K-M125 Streamlined.

A melhor foto da história: Bernd Rosemeyer e Rudolf Caracciola na NordKurve de Avus em 1937. Tem foto melhor do que essa?

Após a segunda-guerra mundial, a derrotada Alemanha ficou por um tempo distante do automobilismo. Avus foi reconstruída junto das duas “Autobahns”, mas perdeu a sua curva sul, que deu lugar a um retorno. No filme “Bastardos Inglórios”, o diretor Quentin Tarantino passa a idéia de que devemos exorcizar os fantasmas do passado sem esquecer as marcas e lições que eles nos deixam. O mundo havia expurgado Hitler, cujas atrocidades ainda estavam chegando ao conhecimento público, e o mundo da velocidade havia evoluído e uma nova categoria, a Fórmula 1,que passara a realizar as suas corridas na não menos incrível Nurburgring. Uma prova extra-campeonato com domínio da equipe Mercedes abriu caminho em 1957 para que dois anos depois, através de manobras políticas nos bastidores, Avus voltasse a receber uma corrida de Fórmula 1.

Esse retorno gerou uma revolta por parte dos pilotos. Stirling Moss deu uma declaração forte antes do final de semana da corrida afirmando: “É inseguro, insatisfatório, desinteressante, não tem nada a provar para os pilotos e eu considero uma vergonha para a Alemanha que eles tendo um dos melhores circuitos do mundo (Nurburgring) escolham o pior.”

As críticas não impediram a realização da prova, que teve um acidente fatal durante a classificação para a corrida de carros de Turismo. O Porche RSK do Francês Jean Behra decolou para a morte durante o contorno da Nordkurve .

Na prova, o descontente Stirling Moss deu apenas uma volta e entrou para os boxes, Hans Hermann sofreu também um gravíssimo acidente, sobrevivendo ao ser ejetado do carro.

A vitória ficou com o piloto Tony Brooks a bordo de uma Ferrari, na corrida que voltou a ligar o nome de Hitler e sua curva feita para comprovar a superioridade alemã à morte sem sentido racional.

Avus perdeu a curva inclinada e viu Nurburgring retomar o posto de principal circuito alemão, deixando para ela corridas de categorias menores, sendo diminuída ao longo dos anos em busca de maior segurança. Terminou seus dias como palco da DTM em 1998.

O traçado das décadas de 30 e 40 com a sua curva inclinada sempre estará eternamente no imaginário dos entusiastas, junto da admiração pelos heróis que por ele voaram, mas a valorização da vida e a busca por segurança afastam Avus dos dias atuais.

Aqueles velhos tempos podem ser rememorados hoje em uma estada na torre de cronometragem, agora restaurada e convertida em hotel, ao se olhar fotos da época, procurar traços do que sobrou do “Paredão da morte de Hitler” em imagens de satélite ou mesmo em modernos simuladores de corrida. Porque os autoramas embaixo da cama, esses também não existem mais.

A melhor pista que esse mundo já teve, é um simples retorno que fica ao redor de um estacionamento.

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